terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Versos - Luis Fernando Veríssimo

O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas.

Inimigos - Luis Fernando Veríssimo )


Versos - Carlos Drummond de Andrade

[...] 
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(As sem-razões do amor - Carlos Drummond de Andrade)


Versos - Mário de Sá-Carneiro

[...]
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada.
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma.

(Dispersão - Mário de Sá-Carneiro


A cabeça de corvo - Alphonsus de Guimaraens

LA CABEZA DE CUERVO

Traducido por Anderson Braga Horta
Calmo, a lo largo de la noche lenta,
Escribo, insomne. A un lado de la mesa
Un negro tintero hay que la cabeza
   De un cuervo representa.
Mudo lo miro y así me mortifico
Y en mi dolor atroz más me concentro:
Y entreabriendo su grande y fino pico
Meto la pluma en su garganta adentro.
Y solo, de su panza, poco a poco,
Voy sacando la pluma inmersa en tinta...
Y mi mano, que tiembla toda, pinta
   Versos propios de un loco.
Con su abierto ojo vítreo, la funesta
Ave que representa mi tintero
Sigue mi mano, que camina, presta,
Temblando toda en el papel entero.
Me dicen cuantos me desean vivo
Que lance fuera ese agorero cuervo,
Pues sangra de él este descreer protervo
   De los versos que escribo.

Alphonsus de Guimaraens



 A CABEÇA DE CORVO  

Na mesa, quando em meio à noite lenta
Escrevo antes que o sono me adormeça,
Tenho o negro tinteiro que a cabeça
  De um corvo representa.

A contemplá-lo mudamente fico
E numa dor atroz mais me concentro:
E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,
Meto-lhe a pena pela goela a dentro.

E solitariamente, pouco a pouco,
Do bojo tiro a pena, rasa em tinta...
E a minha mão, que treme toda, pinta
   Versos próprios de um louco.

E o aberto olhar vidrado da funesta
Ave que representa o meu tinteiro,
Vai-me seguindo a mão, que corre lesta.
Toda a tremer pelo papel inteiro.

Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agoirento corvo,
Pois dele sangra o desespero torvo
   Destes versos que escrevo.


Alphonsus de Guimaraens


Versos - Álvaro de Campos

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

(Lisbon revisited - Álvaro de Campos)


Psicologia de um vencido


Psicologia de um vencido


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos



domingo, 6 de janeiro de 2013

O colecionador de corpos


O colecionador de corpos


Meu nome é Orion Turunem. Sou um advogado criminalista. O caso que vou relatar comprova como disse alguém, que a verdade, muitas vezes, é mais absurda que a ficção.
Era dezembro de 92, estávamos na sede de Sarajevo, quando recebemos um chamado urgente. Foi encontrado Arucard Hellsing, 32 anos, homossexual, abusando sexualmente de um homem morto, já em estado de decomposição.
O cara foi preso, claro, mas recusava a confessar qualquer coisa, permanecia inabalável. Até que por vontade própria começou a contar sua história: mãe bêbada, pai preso por latrocínio, irmã drogada e prostituta, perfeito caso de família disfuncional. Havia fugido aos treze anos, após um dos clientes da sua irmã molestá-lo sexualmente com uma barra de ferro e uma garrafa de vodka. Depois de ter nos dado todo o seu comovente histórico familiar, continuava evasivo a perguntas sobre o cadáver.
Ele ficou preso durante dois dias, até que, finalmente, teve coragem, ou melhor, vontade de contar quem era o indigente e porque estava tendo relações sexuais com o corpo desalmado.
- Não o chamem de indigente! – proclamava – Ele possui um nome, Rosevelt Homero, estudante de advocacia, meu primeiro e único amor. Nos encontrávamos todos os dias depois de suas aulas, até que ele conheceu a vadia da Sayuri Sakamoto, ela o roubou de mim. Eu tive que fazer a coisa mais prudente que pude pensar, consumi com a vaca dando-lhe um tiro entre os olhos. Finalmente retornei a persegui-lo com minhas juras de amor, mas infelizmente fui ignorado, por fim o sequestrei. Depois de algumas semanas meu amado morreu de um misto de tristeza e fome, mas eu não podia me livrar de tão tenro corpo, cujas feições ficaram cravadas em meu peito.
Quando o senhor Hellsing terminou o seu depoimento, um enorme sentimento de repulsa borbulhou em minhas veias. O rosto daquele demente pareceu se transformar perante os meus olhos, em algo obscuro, com feições que se assemelhavam a junção de um bode com um morcego, era algo amedrontador, uma criatura que povoaria meus sonhos por anos.
Não aguentei, tive que atirar nas suas fuças, o pervertido nem teve tempo de pensar. O julgamento que ele teria provavelmente o sentenciaria a prisão perpétua, como eu. Mas apesar dos constantes assédios, da total falta de higiene e da comida muitas vezes estragada, eu não me arrependo de ter descarregado o cartucho da minha 9mm na cabeça do desgraçado mesmo que isso tenha custado a minha liberdade.


 J. Augusto